Entre o slam, a ancestralidade e a música autoral: quem é Maimbê, vencedora do Festival da Canção

Tem artista que sobe ao palco.
E tem artista que transforma o palco em extensão da própria alma.

Foi assim que Maimbê atravessou o 15º Festival da Canção Assufemg, atividade que integrou o XXXVII Rosas de Abril. Entre versos autorais, sonoridades marcantes e uma presença que misturava delicadeza, força e verdade, ela conquistou o público, os jurados e levou para casa o primeiro lugar com a canção Tempo. Mas, pelo jeito, quem saiu realmente transformada da experiência foi ela mesma.

Em apenas seu quarto show com a banda Baixo Centro, Maimbê apresentou não só uma música, mas um universo inteiro: afetos, identidade, ancestralidade, memória, amadurecimento e pertencimento. Tudo isso embalado por uma estética artística que parece nascer do encontro entre o slam (batalhas de poesia falada), a rua, a música mineira, os palcos da UFMG e os próprios atravessamentos da vida.

Entre uma resposta e outra, a cantora fala sobre o significado da vitória, a relação profunda com a música, a origem do nome “Maimbê”, o encontro com o baixo-Centro (região em Belo Horizonte) e a potência de ver suas composições tocando outras pessoas. E faz isso da mesma forma que canta: com sinceridade, sensibilidade e presença.

A seguir, confira a entrevista completa com a vencedora do 15º Festival da Canção Assufemg concedida à Maria Célia Passetti*.


🏆 Sobre a conquista

» Como foi para você receber o resultado e saber que era a grande vencedora do Festival?

Maimbê – Pra mim, ser a grande vencedora desse festival foi muito importante. Foi o primeiro festival que a gente venceu e também a nossa quarta performance juntos como banda. Isso me deixou muito feliz, muito honrada, especialmente representando a Escola de Música da UFMG.

Fiquei com o coração muito grato e feliz por reconhecer essa conquista como um passo a mais dentro da minha carreira, um começo, um marco inicial de tudo. Vencer esse festival em específico me toca ainda mais por ser um lugar que eu frequento, que eu vivencio, por onde eu transito. Subir naquele palco foi também uma forma de afirmar que eu me sinto pertencente a esse espaço.

Fiquei muito, muito feliz e grata por essa composição minha também ter vencido, “Tempo”, uma música muito especial pra mim, que surgiu como um sopro do vento, de forma muito natural.

Estou realmente muito honrada e feliz por essa conquista. É mais um passo no meu caminho, no que me move e me faz feliz: a música.

Maimbê se apresentando no palco da Assufemg | Foto: Flávio Brunelli

» O que esse prêmio representa na sua trajetória como artista?

Maimbê -Representa um primeiro passo, a abertura de portas para a ascensão da minha carreira e também um entendimento maior da dinâmica desse caminho. Eu me senti muito feliz e livre no palco, então isso também simboliza liberdade, sabe? A liberdade de poder cantar e de ser compositora, autora das minhas próprias obras.

» Qual foi o momento mais marcante dessa experiência no Festival?

Maimbê – Bom, para mim, o que mais me marcou, e não tem como não falar disso, foi a reação das pessoas diante da minha música. Não tem nada mais especial do que algo que nasce da sua cabeça, do seu universo, do seu “xadrez” interno, ganhar forma como canção e tocar outras pessoas, gerar identificação, fazer com que elas gostem daquilo.

Então, pra mim, foi muito sobre a receptividade, os comentários, as pessoas que vieram me abraçar. Eu senti de verdade esse afeto, essa troca que a música, por si só, já proporciona. Teve um momento, no primeiro dia em que eu fui competir, em que uma moça me disse que eu mudei a noite dela, que deixei ela mais feliz. E isso, pra mim, dá sentido a tudo que eu faço. É sobre tocar as pessoas com as minhas músicas, transformar de alguma forma.

Foto: Flávio Brunelli

E no segundo dia ela voltou, falou que tinha ido só pra me ver. Isso me atravessou muito. Conseguir mobilizar as pessoas a ponto de elas saírem de casa pra assistir, pra ouvir, pra dedicar um tempo… isso me deixa muito grata.

Esse festival me deu essa perspectiva, de como é potente quando alguém escolhe sair de casa pra ver um show, pra ouvir um som, porque gosta, porque se conecta, porque aquilo toca de verdade. Isso foi muito marcante pra mim. Fico muito feliz.

🎶 Sobre a música e trajetória

» Quando e como começou sua relação com a música?

Maimbê -Eu comecei minha relação com a música ainda criança, através de projetos sociais. Sempre estive rodeada de música e de instrumentos, e isso também vem de uma influência familiar, principalmente do meu pai, que sempre teve esse desejo e esse olhar para a música. Um dos primeiros instrumentos que tive contato foi a flauta transversal, e depois, por volta dos meus 12, 13 anos, pedi um violino de presente, porque era completamente encantada pela sonoridade dele. A partir daí, fui desenvolvendo essa prática e passando por diferentes escolas de música, até chegar ao Cefart (Centro de Formação Artística e Tecnológica), no Palácio das Artes, que foi um espaço muito importante na minha formação.

» Você sempre cantou ou também toca algum instrumento?

Maimbê – Durante muito tempo, minha relação com a música esteve mais ligada aos instrumentos. Eu toco violino e flauta transversal, e isso sempre fez parte de quem eu sou. Curiosamente, eu nunca me identifiquei como cantora no início. Cantar foi algo que surgiu mais recentemente na minha vida, e acabou se revelando como um lugar de muita verdade e felicidade pra mim. Hoje, me reconheço nesse caminho e venho me preparando cada vez mais para evoluir, mesmo sendo um processo muito intuitivo até aqui.

Violino é um dos instrumentos tocados por Maimbê | Foto: Divulgação

» Quem são suas principais referências ou inspirações musicais?

Maimbê – Minhas principais referências passam, sim, pela música, e um nome que me marca muito é o Michael Jackson, principalmente pela busca dele por excelência, por estar sempre no seu melhor. Isso é algo que eu também carrego comigo. Mas minhas inspirações não vêm só da música. Eu busco referências na arte como um todo, na moda, na arquitetura, no cinema, nos filmes. Eu gosto de me alimentar de diferentes linguagens e estéticas, porque sinto que tudo isso atravessa a minha construção artística. São muitos nomes e influências que, de formas diversas, ajudam a moldar quem eu sou como artista hoje.

🎤 Sobre o projeto musical

» O projeto Maimbê e o Baixo Centro já existe há quanto tempo?

Maimbê – O projeto Maimbê e o Baixo Centro nasceu dentro do AMU, o Festival de Música da UFMG, e foi ali a nossa estreia. Esse foi o nosso quarto show juntos como banda, e a gente nasceu em setembro de 2025.

» Como surgiu esse encontro com o Baixo Centro?

Maimbê -O encontro com o Baixo Centro surge diretamente da minha vivência na região do baixo-Centro de Belo Horizonte. Foi um território muito importante na minha construção como artista, onde eu trabalhei, circulei e comecei a me expressar, inclusive através do slam. Esse espaço me ajudou a ampliar minha percepção sobre a minha própria história e identidade. O baixo-Centro carrega essa força, é um lugar de muitos contrastes, com desafios, mas também com uma potência artística muito grande, muita criação e expressão. Então o projeto nasce dessa conexão real com o território e com tudo que ele representa.

Maimbê e o Baixo Centro. | Foto: Flávio Brunelli

» Como é a dinâmica de vocês enquanto grupo?

Maimbê – Ela é muito leve e fluida. A gente se escuta, dialoga e se respeita, mesmo sendo pessoas bem diferentes entre si. O que nos une é um desejo em comum de fazer música, de se expressar e de encontrar alegria nesse processo. Cada pessoa traz sua própria bagagem, sua forma de pensar e de criar, e é justamente nesse encontro de diferenças que mora a força da banda. Existe uma troca muito viva, uma abertura, e isso faz com que tudo aconteça de forma muito natural e verdadeira.

✨ Sobre o nome

» “Maimbê” é seu nome artístico? De onde vem esse nome?

Maimbê – Da minha iniciação no candomblé. Eu sou muzenza e tenho muito orgulho disso. Faço parte da casa Nzo Jindanji Kuna Nkosi, um lugar onde sou muito feliz.

Dentro da minha tradição, recebi uma dijina, que é o nome dado após a iniciação. Como sou da nação Angola, esse nome vem do quimbundo. Eu adotei Maimbê por identificação, porque sinto que ele representa muito bem quem eu sou.

» Você poderia contar qual é o seu nome completo e como surgiu a escolha por “Maimbê”?

Maimbê – Ao longo do tempo, tive uma relação um pouco instável com o meu nome de batismo, Ana Luiza Rodrigues. No slam, movimento de poesia falada, recebi o vulgo Anarvore, que levei por um tempo. Depois, assumi Maimbê. Quando recebi esse nome, entendi que era ele que deveria me acompanhar. Hoje, é assim que me apresento e me reconheço no mundo.

“Depois que assumi Maimbê entendi que era ele que deveria me acompanhar” | Foto: Flávio Brunelli
💭 Sobre a música apresentada

» Como nasceu a música “Tempo”, que você apresentou no Festival?

Maimbê – Essa música nasceu de um jeito muito fluido, quase sobrenatural, num momento de transição e amadurecimento da minha vida. Eu estava arrumando minhas coisas e refletindo, quando os pensamentos começaram a se organizar em forma de música.

» Em que momento da sua vida ela foi escrita?

Maimbê – Ela surgiu como um diálogo interno, enquanto eu pensava nas linhas do tempo e em como uma versão nossa se conecta com a outra, como se existisse uma chamada entre quem fomos e quem somos. Pra mim, essa música é essa ligação com o eu do passado.

» O que essa música representa para você?

Maimbê – Muita gente acha que é uma música de amor, mas ela fala de autoamor. É sobre se aconselhar, se acolher e aprender com os próprios erros. Sobre maturidade e sobre escolher não atender quando o passado liga, sentindo o frescor de uma nova frequência e evitando repetir padrões.

» O que você gostaria que o público sentisse ao ouvir essa canção?

Maimbê – Eu quero que as pessoas sintam essa música como um abraço, como um conselho que vem de dentro, uma força pra seguir em frente sem negar quem se é, mas aprendendo com a própria história. A nossa mente é um grande mestre, e nunca é tarde pra voltar, se reconectar e recomeçar.

Apresentação no Festival da Canção Assufemg | Foto: Flávio Brunelli
❤️ Sobre ser artista

» O que a música significa na sua vida?

Maimbê – A música é tudo na minha vida. É o que me move. Hoje eu trabalho 100% com música e me sinto muito honrada e feliz por poder viver disso, por me doar a ela.

» E o que significa, para você, ser cantora?

Maimbê – Assumir o lugar de cantora é algo novo pra mim. Por muito tempo, eu sentia que só interpretava as minhas músicas. Foram as pessoas que começaram a me chamar de cantora, e eu fui me reconhecendo e me fortalecendo nesse lugar.

» Qual é a maior emoção que você sente ao subir no palco?

Maimbê – A maior emoção de subir no palco é sentir a energia das pessoas atravessando o meu som. É conseguir transmitir a mensagem com verdade, vivendo cada composição. Tudo o que eu canto é autoral, então eu revisito essas cenas por dentro, buscando entregar com fidelidade o sentimento e a intenção de cada palavra.

🚀 Sobre o futuro

» Quais são seus próximos passos na música?

Maimbê – Os próximos passos são ampliar a visibilidade do meu trabalho junto com a banda, circular mais e fortalecer a agenda de shows. A gente já tem coisas chegando e quero deixar um convite especial: dia 13 de maio, ao meio-dia, vamos nos apresentar no Conservatório de Música da UFMG.

» Você pretende lançar novas músicas ou projetos em breve?

Maimbê – Pretendo lançar músicas novas em breve em todas as plataformas digitais. Tem coisa vindo aí, e eu tô muito feliz com esse processo de criar, ir pro estúdio e lapidar cada som.

“Tem coisa vindo aí” | Foto: Divulgação @jefahzul

» Onde o público pode acompanhar seu trabalho?

Maimbê – Pra acompanhar tudo, é só me seguir no Instagram, @maaimbe. É por lá que eu divulgo os shows, lançamentos e próximos passos.

E deixo aqui também o convite pra vocês acompanharem o trabalho incrível dos integrantes da banda:

Guitarristas: @Gouvveia14 e @__intelectual

Baixista: @pedrov_oleg

Tropetista: @ab.trumpet

Baterista: @rasfanu e @valeriabateristadaigrejinha

Participação trompetista: @mojodotra

Acompanhem, vai ser lindo ter vocês por perto. O futuro tá chamando, e ele vem abundante pra gente.


*Maria Célia Passetti é estagiária, estudante de 8º Período de Jornalismo da UniCesumar

(Sob Supervisão de Flávio Brunelli, assessor de comunicação da Assufemg)


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